quinta-feira, 31 de março de 2011

AQUELA AURORA

Crônica de Luiz Fernando Veríssimo,


Aquela aurora

Em São Paulo acabam de fundar um partido que se declara nem de esquerda, nem de direita nem de centro. Um partido de nada, a favor de tudo, ou exclusivamente a favor de si mesmo.

Tudo bem. "Esquerda" e "direita" são termos obsoletos e "centro" hoje é sinônimo de PMDB, ou de uma nevoa ideológica.
O novo partido paulista não vem preencher um vácuo, vem institucionalizar o vácuo. Seu nome evoca o passado, quando o Getúlio, para não dizerem que o Brasil não era uma democracia, inventou dois partidos opostos, o PTB e o PSD. Justiça seja feita: o novo partido surge representando nada, mas com saudade de um tempo em que as siglas, mesmo falsas, significavam alguma coisa.
Bom mesmo era o século 19, quando tudo isso começou. Como no texto do Paulo Mendes Campos que fala das primeiras do Gênese, com "o mundo ainda úmido da criação", se poderia descrever com o mesmo encanto aquele outro inicio. Quando a História, por assim dizer, entrou na história e tudo recebia seus nomes verdadeiros. Uma segunda Criação. Hegel ainda quente, Marx lançando suas ideias explosivas como granadas, o passado e o futuro sendo redefinidos com rigor científico e a modernidade tecnológica e a modernidade social (ou, simplificando, a máquina a vapor e a nova consciência proletária) prestes a se fundir para transformar o mundo. "Bliss it was in that dawn to be alive", êxtase era estar vivo naquela aurora, escreveu o poeta Wordsworth sobre a Revolução Francesa.
A esquerda poderia dizer o mesmo do século 19. Naquela aurora não havia dúvida sobre a inevitabilidade histórica do socialismo.
Mas êxtase também espera a direita numa volta idílica ao século 19. Foi o século de reação à Revolução, da restauração conservadora na Europa depois do terremoto republicano e do nascente capitalismo industrial sem remorso. Os que hoje propõem a "flexibilização" dos direitos dos trabalhadores conquistados em anos de luta (como os que os ingleses defendiam nas ruas de Londres, há dias) babariam com o que veriam no velho século: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo, e sem qualquer encargo legal ou moral, fora os magros salários, para seus empregadores. A perfeição. Antes que a pregação socialista a estragasse.
Século 19, terra de sonhos. Tanto para a esquerda quanto para a direita, antes que tudo virasse um mingau só.

domingo, 27 de março de 2011

A DEMOCRACIA SUPLETIVA

O professor Gaudência Torquato, que foi meu professor de sociologia em 1975 em São Paulo escreveu um excelente artigo publicado no jornal "O Estado de São Paulo" deste domingo, que reproduzo para os nossos leitores, muito interessante e elucidativo.

A DEMOCRACIA SUPLETIVA

O poder das coisas suplanta o poder das ideias. A hipótese pode parecer um disparate. Inserida, porém, no bojo da sociedade contemporânea – emoldurada pela expansão econômica, despolitização, esfacelamento de doutrinas, luta por interesses setoriais e grupais, administração de coisas materiais, começa a ganhar sentido.
O território da política é o que mais sofre os efeitos dessa nova ordem. E a razão é a crise que assola o modelo de representação.
O declínio dos partidos corrói a imagem dos mandatários e faz nascer múltiplos aglomerados, os quais, por sua vez, procuram substituir a esmorecida instituição política. E por que esta definha? Porque a democracia deixou de cumprir seus compromissos para com a sociedade, como ensina Norberto Bobbio.
A descrença no sistema representativo faz emergir pólos de agregação e contestação fora do Parlamento. Nesse vácuo desponta uma nova designação na fisionomia das nações democráticas: democracia supletiva. O termo, adotado pelo sociólogo Roger-Gérard Schwartzenberg e que indica a existência de uma sub-estrutura em auxílio à democracia representativa, cobre a constelação de entidades que fazem micropolítica, a política do varejo, das pequenas coisas.
Como se avalia a força desse fenômeno entre nós? Por meio da composição da organicidade social. Tanto sob a dimensão vertical (classes sociais, grupos e categorias profissionais), quanto sob o prisma horizontal/espacial (regiões centrais e periféricas), espraia-se vigorosa onda formada por entidades focadas para a intermediação de interesses: associações, sindicatos, federações, clubes, núcleos, movimentos etc.
Na esfera das nações, o Brasil desponta com um vasto território coberto pela democracia supletiva. Dispomos de uma rica moldura de entidades. Algumas instâncias são bem aparelhadas, a mostrar grupos atuantes seja nas retaguardas corporativas – defesa de interesses de setores negociais– seja na vanguarda da cidadania, que abriga o debate sobre temáticas coletivas, como sustentabilidade, igualdade de gêneros, luta contra as drogas, proteção da criança e do adolescente, segurança pública, entre outras.
O que chama a atenção na teia organizativa é o poder de mobilização de certos núcleos, particularmente os que atuam na base da pirâmide social, hoje mais parecida com um losango. Temos, já, 101 milhões de brasileiros na classe média.
Sob esse olhar, surge a primeira observação: a massa laboral detém, hoje, maior poder de barganha e pressão do que o eixo empresarial. É patente o esmorecimento das tradicionais entidades empresariais, como Confederação Nacional da Indústria (CNI), Federações de Indústrias, Associações Comerciais e outras. No passado, definiam rumos da economia. Hoje, mais parecem leões desdentados. Cedem espaço às associações das cadeias produtivas, que, estas, sim, assumem funções políticas nas frentes institucionais.
Já as bases laborais urbanas atingem o clímax de sua força, a partir do ciclo Lula e da legalização das Centrais Sindicais. Endinheiradas e prestigiadas, essas entidades dão o tom em múltiplos espaços da administração pública. Dirigem a orquestra das relações do trabalho. O capital praticamente não apita em matéria de política trabalhista.
Os trabalhadores rurais, por sua vez, não dispõem de um sistema de interlocução tão contundente quanto o dos conglomerados urbanos. Sua imagem, ademais, é embaciada pela cor vermelha das bandeiras do Movimento dos Sem Terra, que, mesmo desprestigiado, encampa a agenda rural.
A representação empresarial do campo, por sua vez, expressa discurso mais harmônico que a urbana. Sua imagem, porém, resvala pelo extremo conservadorismo.
Ainda na parte inferior da pirâmide/losango, formam-se as associações de bairros, que atuam de maneira pragmática na arena institucional, funcionando como extensões da representação política. As questões locais entram no menu servido aos políticos.
Nesse vasto território e até mais em cima, assumem destaque as vertentes religiosas, que, ao lado da defesa de crenças e dogmas, também começam a vestir cores políticas. Passam a entoar o canto geral dos anseios coletivos, como a defesa do meio ambiente, que, por sinal é o tema deste ano da Campanha da Fraternidade, patrocinada pela igreja católica. Igrejas e credos desenvolvem, à sua maneira, a democracia supletiva.
Saindo da base para o meio, expande-se a vasta cadeia organizativa sob a qual se abrigam profissionais liberais, habitantes do centro e do topo da pirâmide. Trata-se de uma rede corporativa, com poder de persuasão e forte articulação junto às instituições políticas, posição que lhe garante escudo normativo. Mas a influência midiática dos pólos centrais acaba se diluindo nos variados compartimentos que conduzem as demandas de cada grupamento.
O contingente jovem, que se retraiu após a mobilização dos caras pintadas da era Collor, começa agora a se fazer presente nas ruas, sendo esta a boa novidade na paisagem de nossa democracia supletiva.
O mais recente movimento dos jovens, em São Paulo, fazendo pressão contra aumento na passagem de ônibus, aponta para o despertar de segmento considerado transcendental para a vivificação de nossa democracia. Eventuais mobilizações que ocorrem no território são motivadas, porém, menos em defesa de ideários e mais por proteção ao bolso. Os jovens continuam apartados da esfera de participação política.
Por último, ressaltam-se as correntes que se formam em defesa da igualdade de gêneros e raças, algumas responsáveis pelas maiores concentrações de massa do país, como a Parada Gay de São Paulo.
Nossa democracia supletiva tende a se expandir, no bojo da conscientização social, expansão econômica, melhoria de padrões de vida e declínio dos mecanismos clássicos da política, como doutrinas, partidos, Parlamentos e oposições. A perspectiva é alvissareira. Afinal, esse é o oxigênio que vivifica todos os poros do corpo social. 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação.